Capítulo 014
Fred estava neste momento, atravessando a rua, quando ao mirar a calçada à frente, viu por um instante, uma mulher muito parecida com Samantha entrando em uma grande loja de utilidades domésticas. Correu em direção àquela entrada, olhando rapidamente para os lados, pois o trânsito era intenso e a passagem não estava livre para pedestres. Uma freada forte se ouviu, o carro desviou de Fred e da janela o motorista proferiu uma série de palavrões, vibrando o braço com a mão fechada para fora do veículo.
Fred mal percebera o que havia acontecido. Entrando rapidamente pela loja, olhando para os lados, muita gente fazendo compras. Ele recordava que a mulher estava com uma blusa rosa. Já era alguma coisa. Logo à frente, uma escada rolante praticamente lotada. Ia ser uma caçada sem tamanho.
“Será que vale a pena? “ - pensou rapidamente. Afinal, viu a mulher de uma distância razoável. Poderia muito bem ser alguém apenas parecida com ela. Não tinha certeza nenhuma. Apenas uma suposição. Mas poderia ser realmente sua musa. Aquele jeito de andar, o cabelo longo e solto, cintilando à luz do sol.
Resolveu partir à caça. Selecionando mulheres de cabelos longos, lisos e castanhos, usando blusas rosas... haviam dezenas!. Fred deu uma risada disfarçada, percebendo a dificuldade que teria. Porém, estava apenas visitando lojas, pensava em comprar algumas brocas para sua furadeira. Estavam bem desgastadas e pretendia fazer umas reformas em casa, colocar umas prateleiras. Precisaria de um material que facilitasse seu serviço.
Aquela loja onde estava era praticamente um shopping. Tinha de tudo. Vários departamentos. Teria que selecionar quais seriam de maior interesse de uma mulher. Uma mulher ainda como Samantha. Pensou um pouco e concluiu que nada sabia sobre Samantha, seus gostos, suas preferências. Mas claro que teria maior chance nas seções de artigos femininos ou de utilidades, como cozinha, material de cama, mesa e banho.
Logo avistou uma seção de cosméticos, perfumaria. Um bom começo. Chegando próximo ao balcão de perfumes, foi logo atendido por uma moça simpática, de terno azul e blusa branca, cabelos negros e lisos, bem maquiada, logicamente.
- Posso ajudar-lhe, senhor? -
- Obrigado, mas estou procurando uma pessoa que entrou agora a pouco, tínhamos um encontro marcado aqui neste balcão mas creio que ela deve ter confundido alguma coisa - disse, girando a cabeça para os lados, tentando localizar algo rosa estacionado.
- Sinto não poder ajudá-lo. Espero que a encontre - sorrindo, voltou-se a uma cliente que a aguardava, próxima ao Fred.
- Obrigado, moça. Obrigado - e seguiu rumo a outra seção. Viu roupas femininas penduradas por todos os lados. Um bom local também. Toda mulher gosta de ver o que há de novo, mesmo que não esteja procurando roupa alguma. Só conhecer a tendência da moda.
Logo ali, uns cinco metros dele, estava uma mulher de blusa rosa, alta, cabelos castanhos, lisos.
“Parece ela. Pelo menos tem o mesmo porte”. Passou rapidamente ao seu lado, enquanto estava meio abaixada, sobre uma bancada de toalhas de rosto. Fred postou-se à sua frente, do outro lado da bancada, começando a manusear as toalhas de forma desordenada, olhando fixamente a mulher. Nisso ela se pôs reta e percebeu que Fred a olhava de forma questionadora. Ela não entendeu o motivo daquele olhar, virou-se para trás e foi em busca de outra bancada, mais na tentativa de afastar-se dali.
“Não, não é ela. Até bonita, mas creio que me reconheceria, já que fixei o olhar em seu rosto. “
Deu um giro de 180 graus, lentamente, conferindo cores de cabelos e de blusas. Ainda haviam algumas. Nisso percebeu uma outra, e notou algo que o fez recordar daquela que entrou na loja. Tinha uma bolsa a tiracolo, branca e algo amarrado na alça, mais precisamente um lenço estampado, como vira na entrada. Só poderia ser ela.
Foi em sua direção. A mulher se emaranhava entre uns suportes de roupas e momentaneamente Fred a perdeu de vista. Apressou o passo, para não perdê-la, já que provavelmente não teria uma oportunidade como essa. Encontrou-a num canto, movendo uns cabides, à escolha de um vestido.
Fred aproximou-se, ficou ao seu lado, olhando para outro bloco de roupas, mexendo a esmo, aguardando quando ela se virasse e pudesse vê-lo, o que não tardou a acontecer. Percebeu um homem ao seu lado, olhando-a quase sem piscar. Olhou nos olhos de Fred, e abriu um leve sorriso.
- Fred ? será que estou sonhando ou é você? - disse, soltando um sorriso mais franco, com certeza de que estava revendo seu antigo amigo de escola.
Fred emocionou-se, seu rosto ficou por um instante, desfigurado. Um misto de grande emoção com um ar incrédulo de não estar acreditando que a tinha encontrado.
- Samantha! quase não acredito que estou te reencontrando. Me belisca. Acho que estou dormindo! Ou melhor... não me belisque.. quero continuar sonhando! - sorriu, juntamente com ela que achava graça com aquele seu jeito bobo e confuso.
- Pois é, menino! por onde você andou? eu saí da cidade por 4 anos, me formei e logo voltei. Não sei viver em outro lugar. Adoro aqui. E você? formou-se?
Fred convidou-a para ir até um café ali perto, atravessando a rua. Foram conversando sobre o que Fred andara estudando.
Escolheram uma mesa num canto, Fred pediu dois chás e um prato com biscoitos. Nove da noite, estava um pouco frio. Um chá caia bem, no que Samantha concordou, quando lhe propôs a bebida.
- Mas e aí, rapaz! me conte! você se casou? com quantos anos está agora? - Samantha estava radiante com o encontro, cheia de curiosidade a respeito de seu antigo admirador.
- Estou com 33 e creio que você também está quase com isso. -
- Faço 33 daqui há dois meses, Fred. Temos quase a mesma idade! - disse sorrindo.
- Pois então... não me casei ainda, acredita? andei trabalhando bastante, preparando uma situação mais sólida para poder me envolver com alguém, em definitivo. E você? - com mais curiosidade que ela.
- Eu me casei, Fred - disse num tom mais leve, baixando um pouco a cabeça, temendo ver a reação de seu amigo.
- Casei-me faz 4 anos. Tenho um menino, vai fazer 3 anos daqui a alguns meses. Mas meu casamento não vai bem. -
Fred percebeu seu rosto mostrar sinais de tristeza e desconforto em tocar no assunto.
- Por que? há algo de errado? diga-me! -
- Não exatamente errado, Fred. Meu marido é viajante. Representante de uma fábrica de calçados. Vive na estrada, muitas vezes vai para outros Estados. Chega a ficar mais de um mês longe de casa e do pequeno William. Gostaria que ele tivesse um outro emprego, para que estivesse mais presente ao nosso lado, entende? -
Fred nem sequer conhecia o marido de Samantha mas já alimentava um ódio natural. Primeiro, pelo fato de ter-se casado com ela em seu lugar. Segundo, pelo abandono da família daquela forma. Tudo bem que fazia parte do seu tipo de trabalho, mas não vinha ao caso. Samantha merecia um marido melhor, mais carinho, todo o carinho do mundo. Não poderia ser tratada assim.
- Você está decepcionada com o.. como é o nome dele? -
- Gustavo. Não estou na verdade, decepcionada. Apenas não sou totalmente feliz. Não é a forma de vida que eu pretendia. Queria um marido que eu pudesse vê-lo em casa, todo fim do dia. Mas tenho que me conformar. Uma pequena lágrima formou-se em um dos olhos e num instante precipitou-se sobre a mesa.
- Desculpe Fred. Não é assim que gostaria de me apresentar a você, toda chorosa. Deveria ser mais forte, não é? -
- Não! Não, Samantha! Olhe para mim! - puxando com delicadeza seu queixo, trazendo seu rosto em sua direção.
- Não podemos nos entregar às coisas que não dão certo na vida. Estamos aqui para sermos felizes. A cada ano que passar, você vai estar mais triste. Mais inconformada com seu destino. Você ainda gosta dele? -
- Gosto. Não tanto como no princípio, claro, quando temos um monte de planos, quando acreditamos que aquela pessoa dará tudo o que esperamos de um relacionamento perfeito. Ele é bom, trata bem a nós dois, mas essa distância é que não está bem. Conversamos sobre isso e ele disse que esse é o seu trabalho, que eu já sabia que seria assim. Ele ainda tem muitos anos até se aposentar. Não vai ser diferente até lá - tentando esconder seu choro com pequenos soluços enquanto mais algumas lágrimas rolavam pelo seu rosto, de pele sedosa como pêssego, tal como na adolescência.
Fred percebia que Samantha não estava bem. Talvez arrependida de não ter ficado com ele e agora ser tarde demais, com um filho para criar. Teria que pensar alguma coisa, rapidamente.
Convidá-la para ir até sua casa, não ficaria bem. Mesmo que não tivesse intenção de assediá-la, ela provavelmente não aceitaria. Conhecia Samantha muito bem, nesse ponto. Seu caráter sempre foi o mais correto possível, pelo menos enquanto a conheceu na escola.
Por alguns minutos, ambos ficaram calados, pensativos, olhares para o centro da mesa.
Nisso alguém toca às suas costas. Fred vira-se e dá com um homem de terno, elegante, com um olhar desconfiado. Samantha levanta-se toda embaraçada.
- Oi amor, você aqui, tão cedo? combinamos às 10 para irmos embora -
Fred não estava entendendo... “ele não estava viajando então?”
- Deixe-me apresentar meu amigo de escola, Fred. Não nos víamos há mil anos. Coincidentemente me achou nessa loja aí em frente!-
Fred levantou-se meio sem jeito, cumprimentaram-se e Gustavo se apresentou sem demonstrar qualquer sentimento estranho.
- Você parece que esteve chorando, querida. Seu rosto está todo vermelho, os olhos também. Aconteceu alguma coisa?
Samantha já havia imaginado que Gustavo perceberia, astuto que era, já que trabalhava com vendas e conhecia cada gesto, cada reação de seus clientes ou futuros clientes.
- Não foi nada, amor. Estávamos lembrando do nosso tempo de escola, ele me lembrou de amigos que nunca mais vimos e isso me deixou emocionada. Mas já passou. Vamos indo? está ficando tarde - pegando nas mãos do marido e iniciando a saída do café.
Fred ainda estava parado como uma estaca, em pé. Estava para perder de vista sua amiga, paixão, musa, tudo que poderia imaginar.
- Foi um prazer reencontrá-lo Fred. Quem sabe um dia desses você não vai tomar um café conosco. Ainda nos vemos e marcamos algo assim, tudo bem?
- Sim, sim, podemos fazer isso - gaguejou Fred, imaginando como se encontrariam numa cidade daquele tamanho.
O casal estava de saída, quando Samantha virou-se para trás.
- Não se esqueça das suas coisas na mesa, Fred ! Até qualquer dia” -
Fred ficou ainda em pé, onde estava, vendo os dois atravessarem a rua, contornarem a calçada e sumirem. Abatido, virou-se para a mesa, para pegar seus documentos e óculos que havia deixado ali, quando reparou um pequeno cartão branco. Era o cartão de visita de Samantha. Havia deixado discretamente junto aos seus pertences.
- Samantha R. Stein - Psicóloga - leu em voz bem baixa, segurando o cartão com as mãos trêmulas. Ela havia deixado o caminho para um novo encontro. Era isso. Olhou para a rua novamente, na esperança vã de vê-la mais um pouco.
“ Ela não quer me perder também. Por isso arriscou-se, deixando o cartão ali, enquanto eu estava em pé cumprimentando seu marido”. - pensou Fred, sentando-se relaxadamente, com um sorriso indisfarçável, enquanto lia e relia o presente de Samantha.

1 Comments:
Por isso é que se diz que, quando formiga quer voar, cria asas.
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