Capítulo 012
Oporão estava com uma pequena luminosidade num dos seus vários cômodos. Lá estava Fred, à noite, enfiado em seu pequeno mundo. Ao seu lado, um cofre. Não um cofre de aço, mas de madeira. Um grande caixa de um metro de largura e quase isso de altura, feito por ele próprio. Lá dentro, seu tesouro, sua riqueza: a coleção de revistas em quadrinhos, na grande maioria de Walt Disney. Personagens como Mickey, Pato Donald e seus sobrinhos, Tio Patinhas. Aventuras que levavam o pequeno Fred a viajar no tempo e no espaço. Além de se divertir, aprendia muitos ensinamentos com aqueles quadrinhos. Quando lia as estórias do inventor e Professor Pardal, aí aguçava-lhe a criatividade e logo tinha alguma coisa em mente para inventar, pregar, martelar.
O cofre tinha alavancas, botões, como sempre fizera com outros brinquedos. Dessa forma, sua coleção ficava intocável. Só ele sabia como abrir a engenhoca.
Colocou esse caixote num canto de duas paredes e de uma à outra, estendeu vários varais, um logo abaixo do outro. Sobre eles abriu revistinhas e dependurou, formando uma verdadeira parede. Era seu espaço. Lá dentro uma lâmpada iluminava o pequeno cômodo.
Havia acabado de ler mais uma estória onde os personagens embarcaram num foguete rumo à lua. Não tardou e Fred guardou as revistas. Foi até um outro cômodo do porão onde tinha construído o seu foguete. Um assento no chão, um encosto, algumas alavancas de madeira, um painel cheio de botões. Tudo pronto para mais uma viagem rumo às estrelas. Essa era a vida de Fred.
Tinha amigos sim. Na rua sem saída, vários amiguinhos se reuniam durante o dia para brincar. Os jogos eram muitos, meninos e meninas divertiam-se sem perigo algum pois não havia tráfego de veículos.
De vez em quando Fred levava um amigo ou outro para brincar no porão. Pegavam algumas revistas e ficavam lendo e balançando na rede. Depois corriam para o quintal. Lá havia mais coisas para se fazer. Escalar o grande abacateiro, ler no suporte que construiu na mangueira, brincar com os soldadinhos de plástico, colocando-os nos barrancos. Cavavam buracos onde seriam os esconderijos dos bandidos e atiravam pequenas pedras até que nenhum deles ficasse em pé. Estava ganha mais uma batalha.
Ao lado do quintal de Fred havia um imenso terreno baldio onde crescia um matagal. Lugar de certo perigo, cheio de aranhas e cobras. Mas isso não impedia Fred e seus amigos de se aventurarem por lá. Munidos de canivetes, caminhavam sob os mamonais. Sentiam-se grandes caçadores. Mas bastava um barulho estranho no mato e logo corriam para o muro de Fred, o porto seguro.
- Fred !! Fred!! -
Fred estava atento em sua leitura onde Mickey e Pateta estavam fugindo do famigerado João Bafodeonça, quando ouviu seu nome. Sua mãe, provavelmente chamando-o para dormir. Já era 9 da noite ou mais.
Para subir, Fred tinha uma técnica. Não podia simplesmente apagar a luz de seu cubículo com revistas.
Isso o deixaria em plena escuridão.
Um dos cômodos do porão era muito escuro, não tinha iluminação a não ser a diminuta janela que dava para a calçada. Era muito pouca luz em meio a tanta coisa enfiada em prateleiras. Naquele breu poderia morar qualquer tipo de animal, até mesmo desconhecido por Fred.
Então acendia primeiro a luz das escadas, depois voltava e apagava a das revistas. Em seguida, uma boa corrida para que nada o alcançasse e estava são e salvo na porta que dava para o porão. Fim das aventuras por hoje.
Depois de escovar os dentes, ia para a cama, onde ainda podia brincar um pouco até chegar o sono. Os livros de Monteiro Lobato ou o brinquedo que mais gostava: um arsenal de peças de metal coloridos, com furos para parafusar e montar coisas incríveis. Rodinhas que podiam virar pequenos carros.
Também havia ganho um violão de natal, que, embora Eugênio tivesse se desdobrado para esconder, Fred acabou encontrando num velho guarda-roupas no quarto de empregada, todo enrolado em papel grosso. Fred abriu e seus olhos brilharam. No mesmo instante, tratou de reembrulhar direito para que não percebessem sua descoberta. Assim foi com vários outros presentes, de natal ou aniversário. Fred sabia que ganharia alguma coisa e que possivelmente estava guardado em algum lugar da casa. Certa vez encontrou um deles sobre o guarda-roupas do casal. O embrulho parecia do tamanho de um tijolo. Abriu com cuidado e novamente seus olhos ficaram radiantes. Era um pequeno rádio transistorizado. Como no caso do violão, deixou-o como foi encontrado. Intacto. Restava fazer uma certa cena de surpresa quando o recebesse. O que não era difícil para Fred.
Surpresa mesmo foi quando ganhou sua primeira bicicleta. Eugênio não era rico e naquele tempo não se comprava coisas novas. Fred ganhou uma bicicleta alemã, usada, tamanho adulto. Mal conseguia pedalar, suas pernas chegavam ao pedal com dificuldade. Os aros estavam meio enferrujados e Eugênio comprou tinta prateada. Em pouco tempo elas estavam faiscando de novas. Bicicleta que Fred manteve até sua adolescência.
Deixando as brincadeiras de Fred, certa vez se apaixonou. Uma menina que morava do outro lado do matagal. Do muro do quintal podia avistar Cristina. Foi amor à primeira vista. Paixão à primeira vista, talvez. Ou simplesmente atração à primeira vista. O importante é que vivia pensando em tê-la como namorada. Talvez passassem horas lendo revistinhas. Poderia mostrar como funcionava seu foguete. Convidá-la para um passeio até a Lua. Ela veria com que destreza ele manipulava toda aquela parafernália de botões e alavancas. Ia ficar impressionada e talvez até se casassem mais tarde.
Um belo dia, perdeu todo aquele receio e foi até em frente à casa de Cristina. Seu pai e seu irmão estavam lá também, além dela. Estavam de saída para caçar passarinhos com uma espingarda de pressão italiana. Fred aproveitou para se aproximar de Cristina a fim de constatar o quanto bonita era, também de perto. Foi o fim.
Voltou correndo para casa, desiludido da vida. Triste. Contou a Eugênio e Amanda que não gostava mais de Cristina. Ela tinha pêlos no nariz. Os pais caíram em gargalhada, mas Fred não achou graça. Tinha perdido seu grande amor.
Nesse dia, Fred não quis ler à noite. Nem mesmo brincar com seus ferrinhos e parafusos. Foi deitar-se mais cedo. Resolveu que iria se apaixonar mesmo é por Maria Lúcia, uma vizinha da rua sem saída. Também daria uma boa namorada. Era bonitinha mesmo sem os dois dentes da frente. Mas seus pais disseram certa vez que nasceriam outros, mais fortes e maiores. Fred não tinha pressa.

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