capítulo 007
Muito barulho de metais e conversas e Fred sentou-se. Estivera sonhando, ou perdera o encontro com Verônica? Ou com Samantha?
Esfregou os olhos e olhou para o rádio-relógio. Marcava 19h. Um pouco mais lúcido, lembrou-se do jantar com Verônica. Estava marcado para passar às 20h no apartamento dela. O despertador iria demorar mais meia hora para despertar. Deitou-se novamente, pensando em Samantha.
- “Por onde andará Samantha? “- pensou, respirando profundamente. Fred não se recordava o que havia acontecido em seu tempo de escola. Fazia tanto tempo. Percebeu que estava se envolvendo com Verônica e se isso acontecesse, seria o fim de seus sonhos com Samantha. Não mais poderia pensar na possibilidade de encontrá-la, pois se isso acontecesse, não saberia o que fazer.
- “Um grande amor é um grande amor … talvez único” - concluiu.
Talvez a essa altura já estivesse casada, com três ou quatro filhos.
Ou quem sabe divorciada, imaginou, com uma ponta de esperança incontrolável.
Fred não a via há anos. Nem saberia o tempo exato. Depois do tempo de escola, não teve mais notícias de Samantha. Provavelmente deve ter ido à capital, estudar em alguma faculdade.
Nesse momento, o rádio-relógio começa a tocar uma música. Era hora de se levantar. Meia hora para se aprontar e chegar ao apartamento de Verônica. Ficava a poucas quadras dali, de modo que não tinha porque sair mais cedo. Pegou as roupas que já havia separado para o jantar e levou-as ao banheiro. Um bom banho e estaria pronto para a grande noite. Não tinha intenção nenhuma de convidá-la para vir a sua casa. Mas também não descartava a possibilidade. A intenção desse encontro era a de conhecer Verônica na forma de ser e pensar. Longe de peças de carros, faturas e lista de preços.
Acabou de tomar seu banho e estava a fazer a barba, quando toca o telefone.
- Poxa …. Mas que hora! … - resmungou com o rosto cheio de espuma de barbear. Correu até a sala e colocou o fone no ouvido. Esquecera da espuma e o bocal do aparelho ficou parecendo um doce de confeitaria.
Desferiu um pequeno palavrão e tratou de limpar na toalha enrolada em seu corpo. Ao esfregar o aparelho na toalha, não percebeu que esticou demais o fio e o telefone foi ao chão, soltando-se a carcaça plástica.
- Mas que droga!!! - gritou, não acreditando em tudo aquilo.
Colocou o fone ao ouvido novamente, mas tudo que ouviu foi aquele bip repetitivo, de ligação cancelada.
- “E agora … quem poderia ter sido...” - Imaginou Fred, catando os cacos do telefone, repondo o que restou do aparelho sobre a toalha da pequena mesa.
- “Seria Verônica, perguntando se eu não me esquecera do encontro? “ -
- “Quem sabe ela tentando desmarcar o encontro por algum motivo justo …” - concluindo uma outra hipótese.
Por um momento, pensou em ligar para ela. Mas e se não fosse? Ela poderia imaginar que tratara-se de uma outra mulher procurando-o. Voltou ao banheiro para acabar de fazer a barba. Resolvera ir da mesma forma, pois estava quase na hora. Vestiu-se rapidamente, pegou seus documentos, chave do carro, desceu à garagem e em poucos minutos estava indo em direção ao grande momento do dia.
Enquanto parava em um semáforo, imaginou como estaria Verônica.
- “Estaria realmente interessada em um relacionamento sério?” - imaginou.
Na verdade, Fred não havia sequer perguntado se Verônica era solteira, casada, divorciada ou viúva.
- “Mas que mancada!” - suspirou. Dependendo de cada caso, poderia ir imaginando formas diferentes de conduzir a conversa. O jeito, portanto, seria perguntar sobre isso logo no início.
Mais uns minutos e Fred estava à porta da garagem do prédio de Verônica.
Procurou seu caderno de anotações, para lembrar-se em que andar ela morava.
- “Sétimo andar, apartamento 72” - repetiu em pensamento algumas vezes, para tentar memorizar. Eram tantos números na sua vida. Fred era péssimo em guardar números e nomes. Por isso, escrevia tudo em seu pequeno caderno.
Saiu do carro, olhou para cima do prédio, contou as janelas, para identificar o apartamento. Havia uma janela aberta. Então ela estava lá. Não deixaria o vidro aberto, com tanta chuva que caíra nesses últimos dias.
Teclou o botão da portaria, explicou-se da visita e dois minutos após, o portão foi aberto.
- “Verônica deve ter autorizado, com certeza” - concluiu, pegando o elevador.
Havia um casal no elevador, provavelmente vindo da garagem, em direção a algum apartamento. Fred fitou discretamente a moça. Havia uma incrível semelhança com Samantha.
- “Impossível..” - concluiu. Seria uma coincidência sem tamanho encontrar-se com ela num prédio onde morava sua amiga.
Olhou novamente seu rosto e em seguida o do seu acompanhante, para não dar muito na vista. Realmente era muito parecida com Samantha. Mais velha, mas os traços eram muito parecidos. Os cabelos então, poderia jurar que estava ao lado de sua musa.
Fred fez um esforço de concentração. Tinha que pensar em Verônica. Afinal estava chegando ao apartamento dela. Só faltava chegar lá, com os pensamentos em outra.
Verificou que o botão 4 estava aceso. O casal deveria descer nesse andar, supôs.
De fato, o elevador parou e o casal saiu de mãos dadas em direção a um corredor. Fred olhou fixamente para a moça, tentando comparar seu jeito de andar. Mais uma vez, parecia tratar-se da mesma pessoa.
Fechou-se a porta do elevador. Subindo mais 3 andares, e Fred estava diante de 3 corredores. À direita, à esquerda e em frente.
- “Bom … vamos arriscar um! “- concluiu com um pequeno sorriso. Verônica não lhe explicara qual pegar, mas também, não estava num labirinto. Caso não fosse esse, retornaria e pegaria um outro.
Olhou para o relógio e viu que estava no horário. Oito em ponto. Nada como ser pontual no primeiro encontro. Como se diz, a primeira impressão é a que fica.
Caminhando pelo corredor do meio, observou as portas. Estavam sem número. Provavelmente, alguns apartamentos desocupados, ou nem eram apartamentos. Talvez alguma área de serviço do zelador.
Mais alguns metros e novamente estava diante de uma enrascada. Mais um corredor à esquerda e outro à direita. Em frente havia uma continuação desse onde estava seguindo, mas acabava numa parede sem janela. Haviam apenas mais duas portas ali. Fred começou a suar. Olhou para o relógio e já marcava 8:10.
- “Lá se foi minha pontualidade britânica” - suspirou. Mas ela vai entender que me perdi. Afinal, não me disse que a coisa era tão complicada. Talvez por ela já estar acostumada a trilhar sempre o mesmo caminho, não imaginara que eu teria uma dificuldade dessas, concluiu.
Fred pôs-se a pensar, olhando para um lado, para o outro, com o indicador em seu lábio, franzindo as sobrancelhas.
- “Isto está parecendo uma piada, um conto da carochinha “- sorriu nervosamente, desta vez. Já começava a não achar graça nessa história. O que deveria ser um encontro feliz, parecia se transformar num desastre. Logo no primeiro encontro e ele já não encontrava o apartamento. E dentro do prédio. Seria ridículo. Ela, com certeza, já descontaria alguns pontos em sua nota.
Resolveu tomar o corredor à direita. Caso não encontrasse, bateria em alguma porta para obter alguma informação. Fred sempre fôra uma pessoa de não pensar duas vezes para informar-se, sempre que estivera em alguma dificuldade. Não seria agora que iria mudar de comportamento.
- “Mais uma tentativa …” - resolveu, seguindo o corredor. Novamente, as portas estavam sem numeração.
- Eu não acredito! - resmungou, quase em tom de grito. Faltava pouco para Fred abrir os braços e berrar aos quatro ventos:
- Mas que porcaria de lugar é esse?! -
Já estava desistindo da idéia de procurar corredores. O melhor seria achar um botão de comunicação com a portaria. Caso não achasse, bateria em alguma porta, com certeza.
Mais uns passos e arregalou os olhos de alegria. Era um quadro de comunicação com a portaria. Apertou o botão e ouviu a voz do porteiro:
- Pois não - naquele tom gentil.
- Por favor senhor, estou no sétimo andar e não consigo encontrar o apartamento da Verônica. Aliás, não consigo achar apartamento algum. Todas as portas estão sem identificação. O senhor poderia me dar alguma orientação? Já estou atrasado para o encontro - falou com a voz um tanto embargada.
- O senhor tem certeza que está no sétimo andar? - indagou o porteiro.
- Tenho certeza. Pelo menos, me lembro perfeitamente de ter apertado o botão 7. Nem tenho como comprovar, mas creio que foi o 7 sim - já meio desconfiado que daquele mato não sairia coelho algum.
Passou alguns segundos, aguardando alguma idéia brilhante do porteiro e nada.
- Alô! Alô, senhor! - gritou ao interfone. Nada mais vinha do outro lado.
- Muito bonito! - concluiu. Estou há alguns metros do apartamento de Verônica e não consigo encontrá-la.
Fred resolveu andar. Andar seria o melhor remédio. Conjecturas não levariam à Verônica. Nem o porteiro. Maldito porteiro.
Qualquer coisa que achasse, já seria bom. A porta do elevador, uma porta com número, alguém andando pelo corredor. Sorriu. Seria querer demais ver alguém aqui.
Resolveu bater em uma porta. Isto. Ai já resolvo meu problema.
- Já que o responsável por esta espelunca não dá sinal de vida … - falou em tom normal para alto. Olhou novamente para o relógio. Oito e quarenta. Já nem se importava mais com o horário. Perdido por dez, perdido por mil. Estava perdido de qualquer forma.
Fred dirigiu-se a uma porta e, não encontrando campainha, o que seria uma glória nas alturas dos acontecimentos, resolveu bater. Deu três toques, com a mão cerrada e de mãos para trás, entrelaçando os dedos, pôs-se a esperar por alguém, uma voz, um sinal de vida qualquer. Deveria haver vida inteligente nesse lugar. Não estava num deserto. Ou estava? À essa altura, tudo era possível de se imaginar.
Nenhuma voz, ninguém abriu a porta. Andou mais uns metros e bateu em outra porta, já sem muita cerimônia. Bem mais forte dessa vez. Nada.
Perdendo a paciência, que já era mínima com todos esses fatos, gritou:
- Alguém aqui neste prédio?! -
- Hei!! -
- Alguém me ajude, por favor! -
Com as duas mãos em concha, berrou:
- Incêndio!!! Todos para o térreo!!! Isto não é um treinamento!!! -
Seu rosto se transformou. Do sorriso irônico, passou a expressão desesperada. Não vislumbrava nenhum futuro com Verônica nessa noite. Tudo parecia estranho. Teria mesmo descido no andar errado?
Enfiou as mãos nos bolsos, caminhando e olhando para o chão. Não sabia mais o que fazer, a não ser andar e andar. Quem sabe, num lance de sorte, encontraria alguma pista.
Em certo momento, descobrira que andara em círculos. Já havia passado por aquele ponto. Concluíra pelo extintor pendurado com um aviso escrito à mão: “vasio”.
- “Além de vazio, com s ainda … “ - Só pode ser obra daquele incompetente” - imaginou.
Nisso encontrou um banco. Estava cansado de andar, de ficar em pé, de não achar coisa alguma. Sentou-se. Encostou as costas cansadas na parede e fechou os olhos. Um filme bom estava começando. O de Verônica, na loja. Lá, ele a encontrara facilmente. Lindo sorriso o de Verônica. Dentes lindos também.
Fred finalmente estava passando pelos melhores momentos desse dia. Lembrando-se de Verônica. Apenas lembranças.

1 Comments:
Olá Mauro! Aproveitando uma folguinha aqui no trabalho, resolvi ler seu livro. Confesso que fiquei nervosa, os capítulos parecem descrições de um sonho ruim. Não pesadelos, mas aqueles sonhos em que acontecem coisas constrangedoras e inervantes. Mas, a leitura é instigante e já estou lamentando ter que esperar até a próxima quinta para saber mais. Um beijo.
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